Os Alpes estão no sangue de Lise Billon. Nascida em Romans-sur-Isère, na França, e filha de pais escaladores, ela cresceu na mitologia das montanhas. Ela se aventurou primeiro nos penhascos locais ao redor da cidade natal dela, antes de procurar por picos maiores. Foi apenas uma questão de tempo para que ela seguisse os passos do pai e se tornasse uma guia de montanhas ela mesma.
A alpinista de 32 anos ama explorar e as montanhas a levaram ao redor do mundo, desde os Alpes franceses até o Alaska, passando pela Patagônia. No Alaska ela conseguiu abrir novas rotas, incluíndo L’Odyssee e La Illiade, ambas no Alaska.
Na Patagônia, ela escalou uma montanha de 900 metros chamada Ballas y Chocolate, em Cerro Adela Norte. Em 2016, Lise e a equipe dela ganharam o cobiçado Piolet d’Or pela primeira subida de Hasta las Webas (1000m ED), em Cerro Riso Patrón, na Patagônia.
Billon mora na cidade francesa de Chamonix, onde ela é uma guia de montanhas para a companhia de guias da cidade. Conversamos com Billon para aprender o que é preciso para se tornar uma guia de montanhas profissional, o que o trabalho exige e a sabedoria adquirida com trabalho duro que a manteve segura nas montanhas.
Perguntas para Lise Billon:
Como você descobriu a escalada? Meu pai era um guia de montanhas, então, minha família já estava dentro da escalada. Comecei a escalada esportiva quando era adolescente e depois fui para as montanhas e fiz montanhismo com 18 ou 20 anos. Na França, temos uma federação nacional de escalada, e eu comecei a fazer montanhismo por meio dela quando era jovem, além de fazer cursos e clínicas para aprender.
Você sonhava em ser guia de montanhas quando criança? Bem, primeiramente, eu queria ser uma fotógrafa profissional para caçar lobos do ártico no norte do Canadá. Mas eu acho que não era uma boa ideia (risos). Então, sim, eu diria que queria ser uma guia de montanhas quando era muito nova, por volta dos 12 anos ou algo assim. Eu acho que era por causa do meu pai, que era guia de montanhas, então eu cresci com a mitologia das montanhas. Meu pai foi uma grande inspiração. Também tinham outros escaladores no meu clube, que eram talvez cinco anos mais velhos do que eu, e treinavam para serem guias de montanhas e eu pensei: ‘Uau, isso parece legal. Quero fazer isso’.
Como é o processo de treinamento para ser um guia de montanhas na França?
O processo é um pouco longo. Primeiro, você tem que ter paixão, porque, caso contrário, isso não vai dar certo. Antes mesmo de começar os cursos e fazer as provas, existe uma lista bem grande de rotas que você precisa fazer para se preparar e isso pode levar muitos anos para ser feito. No começo, é bom só ir até as montanhas, sem pensar na lista, para ter a própria experiência e crescer como montanhista, antes de se tornar um guia. Quando você completa a lista de rotas que são obrigatórias, você pode fazer o exame de ingresso. Ele é um pouco difícil e pode levar muitos dias. Existem muitas etapas: a seção de esqui, a seção de escalada (com botas de montanha), depois uma semana inteira de montanhismo com os professores que te observam para ver as suas habilidades e se você não tem algum comportamento perigoso ou arriscado. Então é por isso que é muito importante ter uma experiência prévia para se sentir confiante no exame. Uma vez que você é aprovado, isso te permite entrar no componente educacional, mas não quer dizer que você pode guiar os clientes ainda. Depois de passar no exame, e quero dizer como isso acontece na França, mas é quase a mesma coisa no mundo todo, dali, a gente tem um mês de instrução nas pedras, depois um mês de instrução de ski e um mês de instrução de montanhas. No final, se você tiver uma boa avaliação, você é capaz de começar a trabalhar com clientes ou um guia que seja aspirante. Como um aspirante a guia, você ainda está bem restrito e pode apenas guiar em coisas fáceis em baixa altitude, porque é bem diferente ir para as montanhas uma pessoa sozinha e estar com outra pessoa. Você é um guia aspirante por dois anos e meio e, durante este período, você tem mais aulas, como escalada no gelo e esqui de montanha. Antes do final do processo, você tem outra lista de rotas para completar, rotas que você fez com os clientes, e mais rotas que fez sozinho, com alguns pontos específicos. É uma lista bem longa. Nos meses finais, os instrutores julgam as suas habilidades e o quão bem você trabalha com as pessoas. E, no final do mês, eles dizem: ‘Okay, você está apto ou não’. Se você passar por essa aprovação final, então, você é um guia de montanhas certificado.
“Primeiro, você tem que ser apaixonado, isso não vai funcionar do contrário”
Qual conselho você tem para os escaladores mais jovens que estão interessados em um dia se tornarem guias? Primeiro, eu diria que é muito diferente de ser um escalador de rochas do que um montanhista. Não tinha prestado atenção nisso quando comecei. Ser um bom escalador de rocha não te faz um bom montanhista. Quando você está nas montanhas, você lida com riscos muito maiores e perigos objetivos, como desmoronamentos, além das mudanças que acontecem no clima. Você tem que ter uma gama muito maior de habilidades e experiências para tomar decisões difíceis que você não faria quando está apenas escalando nas pedras. Então, eu acho que é bom começar um pouco mais tarde nessa vida quando você tem mais maturidade. Você não quer ser atropelado pelo seu ego.
Qual a sua parte favorita de ser uma guia? Estar nas montanhas. Prefiro estar nas montanhas do que estar em um escritório em qualquer dia. Me sinto muito sortuda de estar ao ar livre todos os dias. Acho que é uma coisa muito boa para mim.
Você tem alguma flexibilidade de escolher onde e quando trabalhar? Sim, é um trabalho 100% freelancer. Então você escolhe quando quer trabalhar. Mas, obviamente, existem temporadas com mais demandas para guias, então você precisa estar presente se você precisar de algum dinheiro. Fevereiro, março, abril, julho e agosto, estes cinco meses são os que têm menos flexibilidade porque são os cinco meses mais intensos para quem é guia nos Alpes franceses. Porque você é freelancer, você sempre pode arranjar o seu ano como quiser, o que tem muito a ver com ser um guia de escalada. Você pode trabalhar no horário padrão das nove da manhã às cinco da tarde, pegar o teleférico, fazer percursos clássicos e voltar para casa bem cedo. Ou então, pode levar as pessoas para fazer expedições em lugares remotos quando quiser.
Você teve que fazer algum tipo de sacrifício na sua escalada pessoal? Sim, e essa é a parte difícil. Como guia de montanha, você não consegue ter muito tempo para escalar para você mesmo. Outra coisa difícil é que, assim como estar no escritório, por você estar o dia todo fora com os clientes, você perde um pouco de energia. Você tem que encontrar a motivação por si próprio para que, quando você tiver algum tempo livre, ainda tenha energia e disposição para escalar.
Isso parece soar como um trabalho, porque você faz a mesma coisa várias vezes? Bem, pode ser, ainda mais em Chamonix, porque lá tem uma lista de rotas clássicas. Mas, para mim, eu ainda sou a treinadora da equipe nacional de alpinismo, então eu vario um pouco do que ser apenas uma guia de escalada. Para mim, nunca é irritante ir nas rotas clássicas várias vezes, porque as rotas clássicas são clássicas por uma razão. Elas são lindas, sabe? Quando tem muita neve e está frio ou eu estou um pouco doente, não fico muito feliz de estar do lado de fora (risos). Mas, é preciso, quando você é uma guia de montanhas. Algumas vezes você vai estar em alguma condição climática que você não quer estar. Isso faz parte da natureza do trabalho.
Quais as principais lições que você aprendeu nas montanhas e no processo de se tornar uma guia? Ao me tornar uma guia, aprendi a ser mais confiante. Como um guia de montanha, é você que toma as decisões pelos seus clientes. Você é responsável pela vida deles e também pela sua própria. Não é a mesma coisa do que escalar por diversão e ver o nível de risco que você está disposto a correr ao tomar decisões como uma equipe. Quando você escala como guia, por vezes, você precisa ser firme com os clientes se as condições climáticas ficarem perigosas. E, nas montanhas, eu aprendi a ser humilde, porque você tem que ser, para conseguir sobreviver. Quando eu estava escalando em Cerro Torre, na Patagônia, meu parceiro puxou um pedaço grande de pedra e caiu abaixo da parada. Eu pensei que ele tinha morrido. Eu quase morri porque um pedaço de rocha caiu 50 centímetros longe da minha cabeça. Ele quebrou algumas vértebras, quebrou os quadris e perdeu muito sangue internamente. Nós tivemos que tirar ele de rapel por conta própria. Não tinha nenhum helicóptero na área naquele momento, então, a equipe de resgate precisou fazer uma caminhada de 10 horas para nos alcançar e depois levar o meu companheiro de volta para El Chaltén. Isso levou 32 horas no total. Tivemos sorte de sobreviver.
“Ao me tornar guia, aprendi a ser mais confiante. E nas montanhas, eu aprendi a ser mais humilde. Você tem que ser, se quiser ficar vivo”
Naquele tempo, eu era muito jovem e inexperiente. Nós tínhamos acabado de fazer uma primeira grande subida e senti que tinha sido bem-sucedida, mas esse sentimento era errado. Nós não éramos invencíveis.
Os acidentes raramente acontecem pelas probabilidades. Normalmente são um resultado de decisões ruins. E, nas montanhas, mesmo um pequeno acidente pode ter grandes consequências. Foi bom ter aprendido essa lição, mas é muito melhor aprender sem acidentes. Nas montanhas, você precisa estar confiante, e até ser um pouco audacioso às vezes, mas humilde. Essa é uma linha tênue.
