Nós todos estaríamos perdidos sem os livros-guias de escalada, seja de que forma ele for usado (em papel ou digital). E, assim mesmo, são poucos os escaladores que realmente apreciam o quanto de trabalho eles fazem. Esses cobiçados livros evoluíram dos tempos dos croquis de rotas desenhados à mão para se tornarem álbuns de fotos dignos de serem exibidos em mesas de centro, mas uma coisa ainda permanece a mesma, a criação de um livro-guia para a escalada é, e sempre vai ser, um trabalho feito com amor.
“Eu acho que se eu contasse as horas que eu passei produzindo os livros-guias e dividisse a soma desse dinheiro que eu recebi de volta eu teria trabalho para chegar ao valor mínimo”, diz Pete O’Donovan, que é um escalador que vem de Sheffield na Inglaterra. Ele é também fotógrafo e autor de seis guias de escalada. “Guias e rentabilidade, para mim, essas duas palavras são mutuamente exclusivas”, segundo ele.
Então, por que ele faz isso? Nós conversamos com O’Donovan para aprender mais sobre a motivação dele, o processo e o futuro do negócio,
Entrevista com Pete O’Donovan:
Nos conte mais sobre a sua história de escalada na Catalunha? Em 1987, depois de mais de uma década de escalada, conheci uma jovem estrangeira chamada Àngels, que mais tarde se tornaria a minha esposa. Ela estava estudando inglês em Sheffield naquele tempo e me disse que ela “era de um lugar chamado Catalunha, que não é a Espanha”. Nunca tinha ouvido falar da Catalunha, mas não demorou muito para eu ser apresentado para toda a família e descobri que poderia ser um lugar que talvez não fosse tão ruim para escalar. Pelos próximos 20 anos, mesmo que eu trabalhasse e morasse em Sheffield, passamos as férias na exploração do potencial de escalada da Catalunha e eu nunca reclamei de visitar os sogros. No começo dos anos 2000, comecei a escalar com um grupo de escaladores locais que queriam muito desenvolver os setores novos e, depois de um breve estágio, que envolvia a limpeza dos caminhos de acesso e rochas, mas não a colocação das agarras, eu finalmente estava ‘autorizado’ para colocar as mãos na pedra. Não demorou muito para que eu tivesse o meu Hilti, e, desde então, desenvolver novos setores tem sido uma parte integral das minhas escaladas.
Qual o trabalho para se criar um livro-guia? Você pode explicar o processo? Primeiramente, nunca considerei os livros que eu criei para serem livros-guias como se fossem um trabalho de verdade. De 1987 até 2007, Àngels e eu tínhamos uma pequena empresa de manufatura em Sheffield. Fabricamos equipamentos de escalada, como mochilas, colchonetes para boulder e acessórios com a marca Podsacs, muitas vezes trabalhamos por 80 horas por semana. Isso era realmente trabalho. Mas, claro, os livros-guias também levavam tempo para serem elaborados, ao menos se você quiser fazer um trabalho bem feito. Meu pequeno processo basicamente pode ser dividido em duas partes distintas, trabalho de campo e computador. O trabalho de campo é basicamente tirar fotos e checar as rotas. Então, eu tiro todas as fotos para os livros, de ambas, as fotos dos penhascos e as fotos de ação (na recente escalada de Lleida, usei muitas fotos de ação de outros fotógrafos) e isso pode ser bastante demorado para organizar. Para as fotos de ação, onde era possível, eu sempre tentei pegar desenvolvedores locais para ‘modelarem’ as próprias rotas, e isso de vez em quando pode ser complicado e consumir tempo para arranjar. O computador e os gráficos eram coisas que eu não tinha um treinamento formal, mas realmente tive que fazer e curtir. Inicialmente, era simplesmente tentativa e erro, ao brincar com diferentes paisagens e temas até encontrar um estilo que eu achasse que ficou bom. Essas fotos sempre me inspiraram nas minhas aventuras de escalada, então, era natural que elas fossem a peça principal nos livros-guias. Queria que cada foto tomasse a página toda e ser visualmente apelativa. Em termos de tempo, eu acho que cada livro levou dois anos para trazer frutos.
O que te inspirou a gostar do trabalho? A primeira edição da Escalada de Lleida, nós começamos o trabalho em 2008, e apareceu como uma decorrência de vários fatores. Este era um período em que a escalada na Catalunha, particularmente na província de Lleida, estava em meio a um período de desenvolvimento frenético. No topo da escalada estão Chris Sharma e Dani Andrada (meu coautor em todos os guias de viagem) e ambos viviam como se fossem locais, além de mandarem grandes rotas em Santa Linya e Oliana, enquanto que, em um nível mais humano, vários grupos de escalada na área desenvolviam dezenas de excelentes meio grau de setores. Escaladores de perfil internacional, como Adam Ondra e Dave Graham, começaram a fazer visitas regulares, e a partir disso, a palavra começou a se espalhar rapidamente. Estive fotografando Chris, Dani e outros nas suas diversas façanhas pelos anos anteriores e tinha uma boa coleção de imagens. Também tinha algum tempo nas minhas mãos. Então, durante uma viagem até Rodellar com o Dani, nós discutimos a ideia de um livro-guia e decidimos que poderia ser um projeto interessante. O livro Escaladas de Lleida pretendia ser um livro de volume único, mas as pessoas gostaram, então seguimos com as Escaladas em Tarragona a seguir.
Você faria outro livro? Resposta honesta: Não tenho certeza no momento. Mas provavelmente sim!
Em quantos livros-guias de escalada você já trabalhou até agora? Seis livros no total. Foram três edições da escalada em Lleida na Espanha, dois em Tarragona, ambos feitos em parceria com Dani Andrada. Também fiz um guia de topo para o arenito de Peak District, minha área local de escalada em Sheffield, que se chama True Grit.
Como os livros-guias mudaram com o passar dos anos? Para melhor! Em particular, uma das grandes mudanças foi o uso de fotos nos topos em oposição às fotos com o desenho de linhas. Com o desenho de linhas, a não ser que elas tenham excepcionais padrões artísticos, o acréscimo de uma nova rota conseguida ou marcada pode jogar a coisa toda pelos ares, mas com as fotos de alta qualidade e alta resolução, isso não é um problema. Também acho que certamente os guias modernos não são baratos, mas oferecem um valor melhor de custo-benefício do que os antecessores. Lá nos anos 90, me lembro que pagava entre € 18 e € 20 por livros fininhos, com fotos em preto e branco nas publicações que eram produzidas, que não eram muito boas. Hoje, os escaladores simplesmente não permitiriam isso. Apesar do preço dos livros parecer alto, eu diria que vários dos trabalhos produzidos hoje em papel são resultado mais de amor do que a procura por lucro.
Os novos livros-guias geralmente trazem mais pessoas para as áreas que são mostradas. Você recebeu algum tipo de retorno dos locais que não queriam que o espaço deles fosse visto? E, se sim, como você lidou com isso? Essa é uma questão traiçoeira, e não vou negar que foi uma questão estranha também. No entanto, fico feliz em dizer que a vasta maioria das informações que aparecem no livro foram pesquisadas de acordo com os componentes éticos, ao serem doadas de forma entusiástica pelos escaladores locais, sendo que muitos deles se permitiram fotografar em ação para as fotos do livro. Os livros de Escaladas em Lleida e Escaladas em Tarragona não são guias piratas. Dani esteve na linha de frente da escalada na Catalunha nos últimos 25 anos, estabelecendo centenas de rotas e compartilhando informações delas livremente. Estou muito orgulhoso da minha própria (e modesta) contribuição em termos de desenvolvimento de penhascos. Além disso, a gente doou uma boa parte da renda dos livros para fornecer material de escalada aos escaladores locais, com algo em torno de € 8 mil e € 10 mil em valores atuais.
Independentemente dos guias, minha opinião sobre os "secretivos" é a seguinte: se você e os seus amigos encontrarem um pequeno e belo setor e querem equipá-lo completamente para si mesmos ao segurar informações de forma secreta, está tudo bem, mas, se, ao mesmo tempo, você e os seus amigos estiverem visitando áreas que foram desenvolvidas para a escalada por outras pessoas que fizeram as coisas disponíveis para todos, então isso é completamente injustificável. Seria como se você dissesse: quero ir à sua festa, comer a sua comida e beber a sua bebida, mas você não é convidado para a minha festa.
“Certamente, o principal propósito de equipar rotas é para que os outros venham e aproveitem elas. Quanto mais informações você conseguir lá fora, mais as pessoas vão se espalhar por aí
Obviamente, se existirem problemas de acesso, isso é um caso diferente, porque muitos penhascos já foram omitidos por este motivo. Nunca entendi a razão por trás dos segredos de algumas (poucas) pessoas. Certamente, o propósito de equipar as rotas é para que as pessoas venham e aproveitem elas. E, quanto mais informações existirem, mais as pessoas vão espalhar esse tipo de conhecimento. Pessoalmente, me sinto motivado quando vejo as pessoas nos meus penhascos locais, porque muitas vezes, elas vieram de outros lugares, como Estados Unidos, Japão e Austrália para escalar na Catalunha (e isso fica maior se foi uma rota que eu mesmo equipei!).
Você acha que os guias impressos começaram a ficar ultrapassados com os sites e aplicativos, como Mountain Project, Vertical Life e 27 Crags, ou eles vão sempre ter um lugar? Eu acho que a primeira vez que eu ouvi alguém dizer: “ninguém mais vai usar guias impressos em alguns anos”, veio antes da publicação do primeiro livro Escaladas de Lleida, em 2010. Mas, de alguma forma, as pessoas ainda compram livros. Deve ser uma questão de idade, porque a maioria dos escaladores que eu vejo com aplicativos são mais jovens. Pessoalmente, apesar do fato de muitas das minhas leituras serem feitas no Kindle, eu ainda prefiro os guias impressos nos penhascos. Meus olhos não estão muito bons para usar um smartphone! Mas se, vamos dizer, em uma viagem de três meses pela Espanha, visitando múltiplas zonas em diferentes áreas, eu consigo ver a atração dos aplicativos ao invés de carregar uma caixa cheia de livros impressos que são guias. Nós trabalhamos com os dois, Vertical Life e 27 Crags, então Lleida Climbs e Tarragona Climbs também estão disponíveis na versão de aplicativo.
Quais são algumas das suas rotas preferidas que estão presentes no livro-guia que você é o autor? Não consigo citar apenas algumas rotas, porque existem tantas escaladas incríveis. Mas, se a gente estiver falando das áreas, eu escolho a zona de Camarasa, na província de Lleida. Na primeira impressão, ela não é tão impressionante comparado com, vamos dizer, Siurana, Margalef ou Santa Linya, mas, uma vez que você começa a escalar, você se encontrará em um dos melhores meio-graus de rotas esportivas do planeta. Isso tudo é sobre a pedra. Camarasa é normalmente vertical para um pouco saliente, e aparentemente desprovida de agarras quando vista de baixo, mas, na verdade, tem dois ou três bolsinhos de dedo e pequenas, mas positivas, bordas. Essa é a escalada mais agradável que você vai fazer!
