Uri Maraver tem raízes profundas no mundo das artes marciais. Ele estudou, treinou e competiu no judô desde muito novo, tudo isso enquanto o desejo pelas montanhas cresceu mais forte.
Logo cedo, o atleta espanhol já se via agarrado pela escalada. Ele descobriu que os valores aprendidos nas lutas nos tatames também poderiam ser aplicados também na escalada.
Nas primeiras vezes, Maraver começou a escalar esporadicamente, como ele mesmo diz, mas a devoção para aquilo que tinha encontrado se tornou uma paixão e continuou a se aprofundar. Ele se juntou ao Centro Técnico de Escalada Esportiva da Catalunha (CTEEC) e, por algum tempo, tentou conciliar o judô e a escalada, mas a divisão de foco e energia começou a se tornar um desafio.
Eventualmente, a escalada venceu a disputa, e ele se converteu completamente para a escalada. No CTEEC, Maraver progrediu da posição de atleta para também se tornar um técnico, onde ele poderia compartilhar a experiência que teve com os dois esportes, e os valores aprendidos por meio das artes marciais, que ele poderia dividir com a próxima geração de escaladores.
Aqui, Maraver fala sobre as raízes que trouxe do judô, como ele aplica isso na escalada e o que é preciso para ser um atleta de elite no ambiente competitivo de hoje.
O que te inspirou a se tornar um treinador de atletas? Desde muito novo eu pratiquei judô. Depois de anos como atleta, me senti comprometido a dar um passo adiante e tentar comunicar o que é, para mim, o que é uma atividade como modo de vida. Recebi um treinamento e uma educação especial no judô, não só como técnico, mas também com um foco no elemento humano. Por meio dos altos e baixos, este esporte e as pessoas ao redor dele me inspiraram a compartilhar essas experiências com os outros e a nova geração.
Como o conhecimento do judô te influenciou? Estudando judô em um centro esportivo de alta performance me fez perceber aspectos que poderiam ser aplicados em qualquer performance, tanto em judô quanto em escalada. Não é necessário dizer que um dos mais importantes e o número de horas de prática e análise. Se você não colocar algum tempo, você não consegue alcançar todo o seu potencial. Simples assim. O tempo gasto no CAR (Centro de Alto Rendimento) em Sant Cugat (nos arredores de Barcelona) quando eu era adolescente foi uma experiência muito boa, mas também difícil. Toda a minha energia estava voltada para o esporte e, claro, para o treino acadêmico, um aspecto que não pode ser negligenciado quando trabalhamos com jovens, qualquer que seja a demanda de nível para a atividade esportiva. Ser capaz de ver e compartilhar com os melhores atletas da Espanha de todos os esportes olímpicos me deixou uma impressão poderosa. Estes atletas me impressionaram pelas habilidades físicas e as capacidades mentais.
Como você descobriu a escalada e por que decidiu fazer a transição das artes marciais para as rochas? Desde muito novo, sempre gostei de estar nas montanhas e ao ar livre com a minha família. Sempre que podia, ia com os amigos para as vilas e também aos Pirineus. Pouco a pouco comecei a conhecer as pessoas que faziam trilhas no clube da minha vila. Me tornei um membro e ia sempre que tinha os finais de semana livres das competições de judô. Amava ir para as montanhas e sempre que eu via a escalada eu pensava: ‘isso é o que eu realmente quero fazer’. Então, comecei a procurar pessoas que escalavam e até que um dia isso me pegou. Nos primeiros anos, escalava esporadicamente e me atrevia a acompanhar amigos e pessoas que iriam competir. Depois de algum tempo, me tornei parte do Centro de Técnica de Escalada Esportiva da Catalunha (CTEEC), mas ainda não podia me concentrar somente na escalada porque estava no Centro de Alto Rendimento (CAR) e focado no judô. Anos depois, pendurei o meu quimono, deixei o tatame de lado e foquei minha energia apenas na escalada. Depois de algumas temporadas no CTEEC como atleta, tive a oportunidade de fazer parte da equipe de treinamento e tentei aproveitar a vantagem das horas de tatame e dos muros de escalada. Desde então, não parei de dividir minhas horas com escaladores jovens e não tão jovens para fazer eles melhorarem como atletas.
Quais as diferenças entre um técnico e um treinador? Um técnico está dito para ser uma pessoa que dá instruções e corrige comportamentos durante o treinamento, mas é muito difícil para um bom técnico não ser um treinador melhor ou um educador. Educar é parte do trabalho, especialmente ao lidar com jovens, porque queremos que eles tenham bons comportamentos. Nas primeiras fases ou anos são quando as fundações do atleta são colocadas, então a figura do treinador é crucial para marcar os valores e diretrizes da atividade.
O treino que você recebeu como atleta é similar com a forma que você orienta agora? Se não, o que mudou? Bem, o treino que eu dou para os atletas se parece mais com aquilo que eu tive no judô do que na escalada. Os primeiros técnicos que eu tive no CTEEC também afetaram tremendamente minha carreira de escalador, que depois reforçaram os valores que eu tive no judô, tais como coragem, honra, modéstia, respeito, auto-controle e amizade. Estes valores marcaram o meu início de trajetória na escalada e tento passar isso para os meus atletas. Além da cultura do esforço, estes valores fazem parte da base do meu treinamento, assegurando comprometimento mútuo, motivação e atitude positiva.
O que um escalador precisa para ter uma boa performance? Na minha opinião, um escalador precisa de uma boa base esportiva e mentores que sejam devotados, acompanhado de um ambiente onde não se tenha muita pressão pela performance. É muito importante que o escalador mantenha a motivação, mas isso deve vir do ambiente e dele mesmo, onde o desejo pela excelência e a melhora constante está intrínseco em oposição aos elementos externos. Se o atleta estiver em uma atmosfera relaxada e puder focar na atividade, ele dará os 100 por cento. Bons conselhos e equipamentos também são essenciais para que o atleta consiga os objetivos, que devem ser colocados com otimismo e realismo, considerando os recursos que estão à disposição.
“Um escalador precisa de uma boa base esportiva e mentores devotados, acompanhados de uma boa atmosfera de tranquilidade onde não exista muita pressão para desempenhar”
O que explica o sucesso de certas escolas que são históricas como a austríaca, francesa, japonesa, eslovena e outras? Eu acho que isso tem muito a ver com a atividade e a cultura esportiva de alguns países, porque alguns países se comprometem com o esporte nas escolas desde jovens ou até no ensino primário. Além disso, em algumas partes do mundo, como a França, as montanhas sempre tiveram uma importância grande na tradição. Nas competições, vemos como a performance geral de alguns países cresceu, seja em termos de resultados quanto em termos do número de atletas que podem chegar ao topo do ranking. Em alguns dos países que você citou trabalham com os jovens faz muitos anos. Não tem segredo, quanto mais atletas existirem nas categorias de base, maior será o número de atletas que podem chegar ao topo com o passar dos anos. Os resultados gerais estão diretamente relacionados com os recursos que são colocados para o crescimento do esporte.
Quais serão as demandas do futuro na escalada? O esporte da escalada ainda é muito jovem e ainda temos um longo caminho a percorrer com muito para aprender. Devemos olhar para outros esportes para aprender com eles e ver os desafios que podemos ter pela frente. Precisamos de mais recursos, estrutura e comprometimento das instituições para aumentar o nível dos atletas que podem ter um papel significativo no futuro da escalada. Estando na Espanha, onde temos muitos lugares para escalar e uma longa tradição, seria uma pena perder essa oportunidade. Escalada é um desafio infinito, então devemos estar preparados para tomar as decisões certas e encarar as mudanças que virão.
A escalada vai estar pela primeira vez nas Olimpíadas em Tóquio. O que isso representa para o esporte como um todo? Finalmente, vamos ver que a escalada não é só uma atividade que consiste em chegar ao topo das montanhas, muros ou boulders, mas se desenvolveu em um esporte, com alguns atletas especializados. Ser um esporte olímpico fará a atividade visível no mundo todo e certamente vai impulsionar países em que a escalada não é bem desenvolvida. Como resultado, a gente vai ver um crescimento no número de escaladores, que podem trazer mais benefícios, também algumas dores crescentes, como penhascos mais lotados. Outra coisa, também veremos uma progressão da dificuldade, com escaladores atingindo novos graus tanto nos boulders quanto na escalada esportiva.
Nós vimos os melhores escaladores de rochas externas continuarem a dominar as competições de Copas do Mundo. Você acha que isso vai continuar, ou a escalada competitiva vai se tornar um nicho especializado? É verdade que até agora os escaladores de rochas dominaram o cenário da escalada competitiva. Mas também é verdade que eles aumentaram o foco e gastaram mais energia em treinamentos do que nas rochas de verdade. Com os Jogos Olímpicos em Tóquio, nós vimos muitos grandes escaladores de elite que estavam focados em se classificar e deixaram projetos pessoais para trás. Com a chegada das Olimpíadas, a escalada competitiva tornou-se ainda mais competitiva, o que faz os escaladores de rochas terem mais dificuldade para conseguirem bons resultados sem conseguirem estar focados nas competições. Além disso, é muito difícil competir em três modalidades - boulder, lead e velocidade - em alto nível sem investir muito tempo de treinamento específico. Eu acho que vai ser cada vez mais difícil para atletas combinarem bons resultados em competições e também nas pedras em apenas uma temporada. Procuramos isso em anos recentes onde a maioria dos atletas que chegam nas finais ou vão para o pódio são asiáticos ou da Europa central, onde dificilmente se escala outdoor. Certamente, nas Olimpíadas de Paris sem o formato combinado veremos algumas melhorias e atletas ainda mais especializados.
“Procuramos um tipo de profissionalismo que faz um indivíduo avançar de um escalador para um atleta”
Como fazemos a transição de entender a escalada como atividade para um esporte? Os escaladores da próxima geração estão mudando. Muitos focam em performance acima de tudo, incorporam treinos diários, novos hábitos nutricionais e trabalho psicológico na escalada deles. Procuramos um tipo de profissionalismo que faz um indivíduo avançar de um escalador para um atleta. Seja para competir ou escalar uma rota específica, boulder ou grau, as pessoas acrescentam muitas ferramentas para chegar aos objetivos. Isso é a escalada, pelo menos para alguns, e está passando de ser apenas uma diversão para algo mais esportivo.
Como treinador, quais as qualidades você procura para os seus escaladores? Uma lenta, mas constante evolução e o desejo de atingir a excelência a cada dia. É muito gratificante ver como eles encaram sempre uma dificuldade pessoal ou esportiva com boa atitude e uma rápida tomada de decisão. É impressionante o que eu aprendo com todos eles. Estou impressionado com as habilidades deles em lidar com as situações e mudar elas. Algumas vezes, penso que meus escaladores, meus alunos, estão um passo à frente de mim e como professor isso me faz querer continuar a escalar e dividir isso com eles. Meus escaladores personificam minha paixão, um grande estímulo para a minha motivação!
