Klemen Bečan é um escalador até a medula. Desde quando ele experimentou o esporte pela primeira vez, com sete ou oito anos, o esloveno sabia que era isso que ele queria fazer pelo resto da vida, e ele colocou todo o restante de lado para que isso se tornasse possível de acontecer. Dos começos humildes nas madeiras da escola e nas ruínas de castelos acima da cidade natal dele, Bečan viria depois a competir em torneios locais e depois em torneios juvenis internacionais. Aos 15 anos, ele já era campeão mundial juvenil. Ele continuou a carreira de escalador em competições, e até conseguiu chegar ao pódio em algumas etapas da Copa do Mundo, mas o coração dele estava nas pedras de verdade.
Bečan comprou uma van e a estruturou para que pudesse planejar a vida e viajar pela Europa o quanto fosse possível. Este trajeto eventualmente o levou até Chulilla, na Espanha, onde ele fez a primeira subida de Siempre se puede hacer menos (8c/5.14b) depois de avistar o penhasco. No ano seguinte, ele fez a primeira subida de Joe Mama (9a+/5.15), um projeto aberto em Oliana, na Espanha.
Hoje em dia, ele ainda se mantém ativo e tira motivação de desenvolver novas rotas e orientar novos escaladores. Depois de três décadas de escaladas e vivendo na estrada, aos 38 anos, ele disse que não mudaria nada, talvez tivesse uma van maior. Aqui, Bečan fala das raízes dele na escalada, como ele faz a vida funcionar e as lições que ele aprendeu ao longo do caminho.
Perguntas e respostas com Klemen Bečan:
Como você encontrou a escalada? Comecei a escalar quando a minha escola construiu um muro de escalada. Era um dos primeiros na Eslovênia, ainda que o muro tivesse apenas oito metros e fosse vertical, com agarras de madeira, e depois que eu escalei uma vez, era tudo o que eu queria fazer a partir dali. Tinha a maior expectativa pelo próximo treino de escalada. Cada um podia escalar uma ou talvez duas vezes, se você tivesse sorte, em cada sessão. Algumas vezes, você nem escalava na sua vez, porque não tinha a agarra e você tinha que ir para o fim da fila. Era meio louco. Mas, ao mesmo tempo, era uma novidade, então estava tudo bem para a gente. Eu tinha sete ou oito anos, então, comecei a escalar há 30 anos atrás.
Como você evoluiu no esporte a partir dali? Nós fazíamos a escalada neste muro da escola e logo os técnicos começaram a nos levar para fora também. Acima da minha cidade natal existiam algumas ruínas de castelos e a gente iria lá o tempo todo para percorrer ao longo da base. Alguém precisaria tomar conta da gente: ‘não vá muito alto!’, porque as pedras mais velhas poderiam sair do lugar e a pessoa eventualmente cair. Ainda assim, sobrevivemos sem maiores problemas. Depois, começamos a escalar nos penhascos mais reais, com as cordas acima primeiramente, depois com a guia. As rotas de então não eram tão bem marcadas como as de hoje, mas era divertido. O mais importante era que os nossos pais estavam felizes por nos levarem para onde a gente quisesse escalar. Por exemplo, a gente decidia: ‘OK, amanhã os seus pais nos levam até lá’. Aí você vem e diz: ‘Amanhã você tem que me levar lá’. Era assim todas as semanas e a gente escalou muito ao ar livre quando a gente era criança.
Naquele tempo, você via isso como um hobby ou percebia que poderia fazer da escalada a sua vida? Era um hobby. Meus pais estavam felizes por eu fazer algo, porque qualquer coisa seria melhor do que ir aos bares para beber e fumar ou fazer coisas estúpidas. Eles estavam felizes que eu fiquei obcecado com o esporte e levava a sério. Basicamente, era uma forma saudável de passar o tempo, e como eu gostava, eles me apoiaram o tempo todo.
Quando a escalada passou de um hobby para se tornar uma carreira para você? Comecei nas competições com a minha equipe da escola, e pouco a pouco começamos a ter bons resultados. Eventualmente, entramos no circuito europeu juvenil e as coisas seguiram. Naquele tempo, tínhamos sorte de poder escalar outdoor e também competir. Não sei se isso é mais possível. Algumas pessoas ainda conseguem, mas os escaladores competitivos estão tão especializados que não parece ser mais tão divertido.
Meus pais estavam felizes por eu fazer algo, porque qualquer coisa seria melhor do que ir aos bares para beber e fumar ou fazer coisas estúpidas
Como você estruturou a sua vida para poder escalar o quanto fosse possível? Basicamente, eu escalei e deixei todo o resto de lado. Viajei muito desde então e também encontrei uma esposa que também gosta de viajar. Claro, foi bem legal dividir essas viagens na van. Ela não se importa se a gente vai para algum lugar e escala por alguns meses. De vez em quando ela reclama de passar muito tempo na van e quer entrar para tomar banho ou algo assim. Mas sim (ri). Isso é assim de vez em quando.
Você fica o tempo todo na van ou tem outra casa em algum lugar também? Nós temos uma casa na Eslovênia, mas este ano ficamos menos de um mês por lá. Por enquanto, parece que não vamos voltar tão cedo por causa do novo lockdown. Escapamos para a Croácia e provavelmente vamos continuar até a Grécia, quando ficar frio por lá, e no próximo ano a gente faz uma volta lentamente quando as restrições terminarem.
Como é estar na van com uma criança pequena? Ah, é bom. Agora mesmo ele está dormindo na van e nós estamos aqui na parte da frente. Esse é um espaço pequeno, mas quando tem sol está tudo bem. Você pode sair e brincar lá fora. Quando o clima está ruim, a gente não pode ir para lugar nenhum e pode ser estressante. Somos muito afortunados de termos amigos em que a gente pode usar os apartamentos para ficar abrigados, como pessoas normais, e aí poder voltar para a van.
Você fez algum sacrifício na sua busca pela escalada? Não, eu não diria isso. Normalmente, eu faço o que eu gosto e é isso. Não é fácil às vezes. Viver uma vida normal seria bem mais fácil provavelmente, mas não dá para ter tudo. Você não pode ter a segurança de uma vida normal e fazer o que quiser o tempo todo. Não acho que eu faria diferente.
O que você quer dizer quando fala que não é fácil muitas vezes? Toda a viagem pode ser exaustiva. Mesmo que uma vida na van parece bonita no Instagram, onde tudo é belo e limpo, mas o mundo real não é assim, porque você precisa limpar o lugar umas 10 vezes por dia. E quando a van quebra, você tem que dormir no mecânico. Ou então você fica preso em algum lugar porque dirigiu na lama. Muitas vezes é difícil, mas é bem mais divertido. Você conhece pessoas em cada lugar que você vai e troca tantas experiências. Eu acho que é uma boa forma de se viver.
Viver uma vida normal seria bem mais fácil provavelmente, mas não dá para ter tudo. Você não pode ter a segurança de uma vida normal e fazer o que quiser o tempo todo.
Você tem escalado por três décadas, o que te mantém motivado depois de tantos anos? No começo, foquei em treinos e competições, e coloquei minha energia em escalada externa. Foi bom o tempo todo, vi progressos contínuos nas minhas habilidades. Agora é um pouco mais difícil de progredir, mas o coaching é recompensador. Quando oriento outros escaladores e eles melhoram e ficam felizes, isso me deixa ainda mais feliz. Sinto o mesmo. Quando eles atingem um objetivo com a minha ajuda, sinto que eu progredi também. Isso me faz me sentir ainda melhor, como se eu mesmo tivesse feito, porque fiz isso várias vezes antes. No momento, o coaching me mantém motivado, mas também gosto de clipar e escalar novas rotas. Curto o processo, mas é ainda melhor quando vejo as pessoas escalando as rotas e dizendo ‘que linha legal’. Fortunadamente, com a escalada existem muitas coisas para serem feitas a cada dia. É quase impossível de ficar entediado.
“Fortunadamente, com a escalada existem muitas coisas para serem feitas a cada dia”, diz Bečan. “É quase impossível de ficar entediado”.
Você tem algum projeto atualmente? Fiz um na semana passada, então, agora tenho que procurar algo novo. Acho que vou dar uma olhada em volta e procurar algo novo. Já recarreguei as minhas baterias para a minha escalada.
Como alguém que já viajou o mundo para escalar, quais são os seus lugares preferidos para a escalada? Espanha, Grécia e talvez a França. Passamos muito tempo na Espanha e também moramos lá por dois anos. Então, conhecemos bem a Catalunha e também o sul da Espanha. Minha área preferida talvez seja Oliana, porque se encaixa perfeitamente com o meu estilo, com rotas muito longas. Uso este lugar toda vez que vou à Espanha para treinar e ficar em forma, para depois seguir para outro projeto. Existem tantos lugares para se escalar na Espanha, não só os mais populares, como Siurana e Margalef, mas também tantos outros que valem a pena serem visitados. Se você quiser encontrar um lugar desses, basta dirigir até ele. Algumas vezes você vai se perder ou encontrar um penhasco ruim para depois se perguntar porque você dirigiu por 10 horas até ali, mas isso é parte da aventura. Eu diria que é recompensador na maioria das vezes. Na Grécia, gosto de Leonidio e Kalymnos, que são áreas turísticas onde se vai não para fazer um projeto, mas simplesmente para aproveitar a escalada, a comida, a natação e coisas assim.
Se você tivesse que ficar em um local pelo resto da vida, onde seria? No momento, procuramos por algo na Ístria porque ficamos presos e gostamos do lugar, pensamos que poderia ser legal ter uma casa por aqui. Queríamos também estar na Espanha ou em Briançon, na França. No final das contas, acho que a Eslovênia é um lugar legal por estar no meio da Europa e você pode ir para onde quiser. Então, estar na Eslovênia ou na Ístria seria legal para ter uma van e viajar pela Europa.
Onde você se vê nos próximos anos? Primeiro, precisamos ver o que acontece com as restrições do Covid e depois nos adaptar. Nossa criança ainda é pequena, então podemos viajar. Mas, depois ele vai para a escola e talvez a gente precise parar um pouco. Não sei. Precisamos ver.
Quais as lições de vida que a escalada te trouxe? Se divirta e não fique muito estressado. Sempre tenha tudo o que você precisa e carregue as baterias para a escalada.
